sexta-feira, dezembro 14, 2007

De volta a casa: Quem são "eles"? (Livro online)

Assim que chega a casa mete-se debaixo do chuveiro e deixa que o calor da água o reconforte, transmitindo-lhe uma sensação de tranquilidade, de que tanto precisa.
Sente-se simultâneamente cansado e cheio de energia.
Não consegue perceber o como ou o porquê dessa situação paradoxal, mas é um facto que não pode ignorar.
Começa a arrumar os CDs, para se descontrair um pouco, pois embora seja uma tarefa que lhe agrade, desde há meses que a vem adiando, por falta de tempo.
Uma outra razão é a localização da estante onde pretende colocar a sua música, pois está precisamente no lado oposto àquele onde acha que seria mais adequado estar.
Sempre esperou que alguém o ajudasse a deslocar o pesado móvel, ainda para mais porque tinha que ser levantado em peso, por cima da alcatifa.
Mas quem tinha vindo a sua casa não era pròpriamente para deslocar móveis, nem tal seria mínimamente adequado às circunstâncias da estadia...
Enche-se de coragem e faz uma tentativa.
Ao sentir o solavanco inesperado, julga por instantes, com alarme, que está a haver um tremor de terra, e que o conjunto lhe vai cair em cima.
Mas logo percebe que não se trata disso.
Não consegue acreditar que levantou inopinadamente o móvel daquela forma, como se fosse de cartão, com uma força que não era a sua, que não tinha controlado.
Tenta novamente, agora com mais suavidade, e, sem fazer esforço algum, muda a malfadada estante, de um lado para o outro da sala, de uma só vez, pegando-lhe em bloco, receando ainda que tudo desabasse de repente.
Senta-se no canapé de veludo, encostado à parede, e fica a olhar para o espaço em frente, sem conseguir pensar, sem conseguir perceber o que é que se está a passar com ele.
É interrompido na sua perplexidade pelo toque do telefone, insistente, imperativo, impondo uma presença indesejada.
Atende maquinalmente: "Está?"
Do outro lado, após um curto silêncio, uma voz grave, com um timbre rebarbativo retorque: "Já deve ter notado que se produziram em si algumas ...alterações"
Novo silêncio, e depois: "Não se preocupe, porque isso é decorrente de uma situação que está sob controle e que vamos utilizar para nosso mútuo interesse"
Sem deixar lugar a pergunta ou a resposta, a voz prossegue: "Com certeza que gostará de ganhar algum dinheiro para além do seu rendimento habitual, não é verdade?"
E logo: "Pois vai ganhar muito dinheiro, tenha a certeza. Claro, desde que colabore connosco"
António interrompe abruptamente: "Connosco quem? Com quem estou a falar?"
E ele, com alguma bonomia: "Logo vê, logo vê! Olhe, não deixe que as suas novas capacidades lhe subam à cabeça, está a ouvir? Isso é que é importante. Voltaremos a falar brevemente" e sem mais o telefone foi desligado, deixando o interlocutor ainda com o auscultador junto à cara, num esboço de frase reprimida, que rápidamente se transforma num lamento, e por fim num protesto indefinido, enquanto o som repetitivo da linha desligada lhe ecoa no ouvido, como uma gargalhada de escárnio.

sábado, fevereiro 05, 2005

Será que sou eu? (Livro online)

Entra na carruagem vazia, ainda envolvido no torpor que o tinha dominado.
Tem a roupa amarrotada e molhada, o que lhe provoca uma desagradável sensação no corpo.
Dirige-se para um banco, mas é impedido de o fazer, ao passar por um grupo de três indivíduos que entraram ao mesmo tempo que ele, com aspecto de quem também vem a chegar de um sítio ou de uma situação improvável, e que pretende prolongar um pouco mais essa vivência.
-Tàs um farrapo, meu! O que é que andaste a fazer?
Nem olha para o seu interlocutor e, com um gesto brusco de enfado, que não sente como habitual, empurra-o contra os outros dois.
-Oooh! que violento! Estou a ver que tenho que te fazer a barba!
E logo aparece uma navalha, que é dirigida para a sua cara.
De uma forma inesperada e rapidíssima, bloqueia com a mão esquerda o propósito do agressor, ao mesmo tempo que lhe aperta o pulso com intensidade.
Ouve-se um "crrrccc" sinistro, e o rapaz da navalha fica estupefacto, segurando o antebraço como se fosse uma frágil e preciosa faiança chinesa, com as feições a contorcerem-se de dor. Desequilibra-se com o abanar da carruagem em andamento e cai para cima de um banco, batendo com a cabeça no encosto.
Vendo isto um dos outros indivíduos tira do bolso do blusão uma pistola, e dispõe-se a disparar contra António.
Ainda o movimento não estava a meio da sua trajectória, já a navalha com a qual tinha ficado, se encontrava espetada no braço que empunhava a arma, depois de ter sido atirada com força suficiente para trespassar o blusão de cabedal e a roupa por baixo dele
Com um berro de animal ferido, deixa-a cair e recua até à porta, curvando-se sobre si próprio; olha desesperado para fora, vendo aproximar-se a próxima estação.
Quando as portas se abrem, os três saem desordenadamente, empurrando-se, tomados de um pânico que as circunstâncias justificam em parte, mas que António sente como fora do normal.
Aliás, ele próprio se sente fora do normal, não se sente ele.
Aqueles acontecimentos não têm nada a ver com o que ele é, não se reconhece nas suas acções.
SENTE-SE COMO SE FOSSE OUTRA PESSOA!

terça-feira, janeiro 04, 2005

Maior que o Tsunami

A partir de um abalo de consciência de grande magnitude, e devido à deslocação de massas de boa vontade, com hipocentro no fundo da alma e epicentro no coração, uma gigantesca onda de solidariedade gerou-se como réplica à catástrofe ocorrida no sudeste asiático.
Espera-se que essa onda percorra todo o mundo, arrastando consigo a máxima ajuda possível.
O seu tamanho foi calculado como maior, muito, muito maior, que o Tsunami que a desencadeou, o que felizmente a vai tornar como o fenómeno colectivo de entreajuda de mais ampla dimensão até agora registado na história da Humanidade.
Os serviços competentes alertam a população para as medidas a tomar, nomeadamente não fugir ao seu impacto, não resistir à sua acção, deixando-se arrastar por ela, e não tentar preservar os bens disponíveis, antes entregá-los à sua força irresistível.

quinta-feira, dezembro 30, 2004

Brincando na praia

São algumas crianças, alegres, confiantes no ambiente que as rodeia, brincando na praia, enchendo de areia os seus utensílios coloridos, indo à beira-mar buscar água para fazer as ingénuas construções infantis.
Mas esse mar, que tão tranquilo e azul sempre esteve, torna-se de repente agitado, escuro e ameaçador, avançando pela terra dentro, em ondas destruidoras, ceifando o frágil equilíbrio da corrida aterrorizada que instintivamente iniciaram, após um momento de incredulidade e hesitação.
Reagiram mais rápido que os adultos, mas os seus corpos são igualmente dilacerados pela força destruidora de um mar ferido na sua estabilidade por um tremendo cataclismo.
Tantas vidas perdidas, tanta dor e destruição!
A incomensurável magnitude do fenómeno ocorrido, poderia, deveria, ter sido minorada mediante um adequado sistema de detecção e aviso, que hoje em dia já apresenta uma eficácia comprovada, e que, aliás, equipa as bacias oceânicas das regiões desenvolvidas.
As zonas de menores recursos económicos não têm essa possibilidade, embora seja gritante que têm esse direito, nomeadamente porque esses fenómenos lá se manifestam com grande intensidade, como foi o caso.
Esse sistema deverá ser posto em prática a uma escala mundial, sendo custeado (tal como a ajuda que agora está em curso) por todos os países, especialmente os mais ricos.
As consequências deste trágico e histórico acontecimento vão repercutir-se durante largos anos na economia mundial.
Não há justificação para que isso não seja feito.
Não há justificação para que as crianças não possam brincar na praia em segurança.

terça-feira, dezembro 28, 2004

Terá sido um sonho? (Livro online)

A princípio não percebe o que o rodeia, mas a pouco e pouco sente a luz do sol, que lhe bate em cheio na cara, tornando brilhantes e imprecisos os contornos das paredes, aquecendo a relva ainda fria do orvalho da manhã, que penetra insidiosamente por entre as madeiras e o estuque.
Bruscamente, lembra-se daquele lugar, do que lhe aconteceu, aparentemente na noite passada (será que lhe aconteceu o que ele pensa que lhe aconteceu?), e verifica com espanto que está deitado precisamente no mesmo lugar onde encontrou a estranha criatura que deu origem àquela série de acontecimentos.
Está com frio, apesar do sol de inverno que começa a activá-lo, sente-se muito cansado, com alguma fome, muita sede e a precisar urgentemente de esvaziar a sua bexiga, dilatada e dolorosa.
Este último problema é desde logo resolvido no local, pois as circunstâncias a isso o impelem.
Sai do edifício em ruínas, um pouco cambaleante, sob o olhar desconfiado e receoso de uma transeunte de cesto das compras na mão, e dirige-se para a estação de metro.
Quer ir para casa.

domingo, dezembro 26, 2004

Fuga sem destino (Livro online)

As decorações de Natal sucedem-se umas às outras, constituindo um contínuo luminoso multicolor, que aumenta ainda mais a vertigem interna que António sente enquanto corre sem destino.
Não está cansado, mas sabe que está a fugir, sem saber de quê, porquê ou para onde.
Aquele frio na mão desapareceu, dando agora lugar a uma sensação de queimadura, mas uma queimadura estranha, que não dói, sabe apenas que é assim.
De repente apercebe-se que um automóvel se coloca ao seu lado, acompanhando-o na estrada, ao longo do passeio.
Não consegue ver para dentro, os vidros são fumados.
Após uma pequena curva, o automóvel acelera um pouco e pára mais à frente.
Das portas agora abertas saem três vultos, que se dirigem ràpidamente para ele e que o agarram, embora tente continuar a correr, como que automàticamente.
Parece que todas as suas energias estão a desaparecer, é até agradável, e sente-se a escorregar numa rampa suave, envolvido por uma escuridão amável, deslizando inexoràvelmente para o objectivo da sua fuga......? será....?
O tempo e o espaço apagam-se, a pouco e pouco, mergulhando-o num estado de ausência total da realidade.

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Sempre Natal / Always Christmas / Toujour Nöel

E enquanto esta pequena bola de matéria fervilhante de vida, dor, ilusão, e tudo o mais que a existência motiva, circular pelo espaço sideral, envolta nos torvelinhos da galáxia a que pertence, haverá sempre um dia de Natal.