De volta a casa: Quem são "eles"? (Livro online)
Sente-se simultâneamente cansado e cheio de energia.
Não consegue perceber o como ou o porquê dessa situação paradoxal, mas é um facto que não pode ignorar.
Começa a arrumar os CDs, para se descontrair um pouco, pois embora seja uma tarefa que lhe agrade, desde há meses que a vem adiando, por falta de tempo.
Uma outra razão é a localização da estante onde pretende colocar a sua música, pois está precisamente no lado oposto àquele onde acha que seria mais adequado estar.
Sempre esperou que alguém o ajudasse a deslocar o pesado móvel, ainda para mais porque tinha que ser levantado em peso, por cima da alcatifa.
Mas quem tinha vindo a sua casa não era pròpriamente para deslocar móveis, nem tal seria mínimamente adequado às circunstâncias da estadia...
Enche-se de coragem e faz uma tentativa.
Ao sentir o solavanco inesperado, julga por instantes, com alarme, que está a haver um tremor de terra, e que o conjunto lhe vai cair em cima.
Mas logo percebe que não se trata disso.
Não consegue acreditar que levantou inopinadamente o móvel daquela forma, como se fosse de cartão, com uma força que não era a sua, que não tinha controlado.
Tenta novamente, agora com mais suavidade, e, sem fazer esforço algum, muda a malfadada estante, de um lado para o outro da sala, de uma só vez, pegando-lhe em bloco, receando ainda que tudo desabasse de repente.
Senta-se no canapé de veludo, encostado à parede, e fica a olhar para o espaço em frente, sem conseguir pensar, sem conseguir perceber o que é que se está a passar com ele.
É interrompido na sua perplexidade pelo toque do telefone, insistente, imperativo, impondo uma presença indesejada.
Atende maquinalmente: "Está?"
Do outro lado, após um curto silêncio, uma voz grave, com um timbre rebarbativo retorque: "Já deve ter notado que se produziram em si algumas ...alterações"
Novo silêncio, e depois: "Não se preocupe, porque isso é decorrente de uma situação que está sob controle e que vamos utilizar para nosso mútuo interesse"
Sem deixar lugar a pergunta ou a resposta, a voz prossegue: "Com certeza que gostará de ganhar algum dinheiro para além do seu rendimento habitual, não é verdade?"
E logo: "Pois vai ganhar muito dinheiro, tenha a certeza. Claro, desde que colabore connosco"
António interrompe abruptamente: "Connosco quem? Com quem estou a falar?"
E ele, com alguma bonomia: "Logo vê, logo vê! Olhe, não deixe que as suas novas capacidades lhe subam à cabeça, está a ouvir? Isso é que é importante. Voltaremos a falar brevemente" e sem mais o telefone foi desligado, deixando o interlocutor ainda com o auscultador junto à cara, num esboço de frase reprimida, que rápidamente se transforma num lamento, e por fim num protesto indefinido, enquanto o som repetitivo da linha desligada lhe ecoa no ouvido, como uma gargalhada de escárnio.
