quinta-feira, dezembro 30, 2004

Brincando na praia

São algumas crianças, alegres, confiantes no ambiente que as rodeia, brincando na praia, enchendo de areia os seus utensílios coloridos, indo à beira-mar buscar água para fazer as ingénuas construções infantis.
Mas esse mar, que tão tranquilo e azul sempre esteve, torna-se de repente agitado, escuro e ameaçador, avançando pela terra dentro, em ondas destruidoras, ceifando o frágil equilíbrio da corrida aterrorizada que instintivamente iniciaram, após um momento de incredulidade e hesitação.
Reagiram mais rápido que os adultos, mas os seus corpos são igualmente dilacerados pela força destruidora de um mar ferido na sua estabilidade por um tremendo cataclismo.
Tantas vidas perdidas, tanta dor e destruição!
A incomensurável magnitude do fenómeno ocorrido, poderia, deveria, ter sido minorada mediante um adequado sistema de detecção e aviso, que hoje em dia já apresenta uma eficácia comprovada, e que, aliás, equipa as bacias oceânicas das regiões desenvolvidas.
As zonas de menores recursos económicos não têm essa possibilidade, embora seja gritante que têm esse direito, nomeadamente porque esses fenómenos lá se manifestam com grande intensidade, como foi o caso.
Esse sistema deverá ser posto em prática a uma escala mundial, sendo custeado (tal como a ajuda que agora está em curso) por todos os países, especialmente os mais ricos.
As consequências deste trágico e histórico acontecimento vão repercutir-se durante largos anos na economia mundial.
Não há justificação para que isso não seja feito.
Não há justificação para que as crianças não possam brincar na praia em segurança.

terça-feira, dezembro 28, 2004

Terá sido um sonho? (Livro online)

A princípio não percebe o que o rodeia, mas a pouco e pouco sente a luz do sol, que lhe bate em cheio na cara, tornando brilhantes e imprecisos os contornos das paredes, aquecendo a relva ainda fria do orvalho da manhã, que penetra insidiosamente por entre as madeiras e o estuque.
Bruscamente, lembra-se daquele lugar, do que lhe aconteceu, aparentemente na noite passada (será que lhe aconteceu o que ele pensa que lhe aconteceu?), e verifica com espanto que está deitado precisamente no mesmo lugar onde encontrou a estranha criatura que deu origem àquela série de acontecimentos.
Está com frio, apesar do sol de inverno que começa a activá-lo, sente-se muito cansado, com alguma fome, muita sede e a precisar urgentemente de esvaziar a sua bexiga, dilatada e dolorosa.
Este último problema é desde logo resolvido no local, pois as circunstâncias a isso o impelem.
Sai do edifício em ruínas, um pouco cambaleante, sob o olhar desconfiado e receoso de uma transeunte de cesto das compras na mão, e dirige-se para a estação de metro.
Quer ir para casa.

domingo, dezembro 26, 2004

Fuga sem destino (Livro online)

As decorações de Natal sucedem-se umas às outras, constituindo um contínuo luminoso multicolor, que aumenta ainda mais a vertigem interna que António sente enquanto corre sem destino.
Não está cansado, mas sabe que está a fugir, sem saber de quê, porquê ou para onde.
Aquele frio na mão desapareceu, dando agora lugar a uma sensação de queimadura, mas uma queimadura estranha, que não dói, sabe apenas que é assim.
De repente apercebe-se que um automóvel se coloca ao seu lado, acompanhando-o na estrada, ao longo do passeio.
Não consegue ver para dentro, os vidros são fumados.
Após uma pequena curva, o automóvel acelera um pouco e pára mais à frente.
Das portas agora abertas saem três vultos, que se dirigem ràpidamente para ele e que o agarram, embora tente continuar a correr, como que automàticamente.
Parece que todas as suas energias estão a desaparecer, é até agradável, e sente-se a escorregar numa rampa suave, envolvido por uma escuridão amável, deslizando inexoràvelmente para o objectivo da sua fuga......? será....?
O tempo e o espaço apagam-se, a pouco e pouco, mergulhando-o num estado de ausência total da realidade.

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Sempre Natal / Always Christmas / Toujour Nöel

E enquanto esta pequena bola de matéria fervilhante de vida, dor, ilusão, e tudo o mais que a existência motiva, circular pelo espaço sideral, envolta nos torvelinhos da galáxia a que pertence, haverá sempre um dia de Natal.

segunda-feira, dezembro 20, 2004

O estranho mensageiro (Livro online)

Movido por uma curiosidade imparável, António procura a entrada do velho edifício, tremendo um pouco , talvez de frio, talvez de medo, certamente de expectativa.
Basta-lhe andar alguns passos, desequilibrados pelo acumular de lixo e destroços, para se aperceber de uma forma humana, prostrada no chão, olhando fixamente para ele, para além dele, com uma intensidade incomodativa, peremptória, final.
Curva-se para o homem (acha que é um homem!) e apercebe-se que as suas feições não são as de um indivíduo normal.
A sua cara é... estranha, e o corpo, tanto quanto consegue distinguir naquela semiobscuridade, aparenta contornos fora do comum.
Mas sem que ele se aperceba, o ser move-se ràpidamente, pega-lhe no antebraço direito com a mão esquerda, e com a mão direita deixa-lhe um objecto cilíndrico, intensamente frio, na sua mão do mesmo lado.
Sente que este objecto como que lhe queima a pele, e lhe transmite uma sensação intensa pelo corpo inteiro, uma sensação que nunca tinha tido, uma sensação de morte em vida!
E fala-lhe, numa língua estranha, que não compreende: "Ad enok oi te bat ai sed!", pareceu-lhe ouvir, mas não eram palavras, nem sons, se calhar ouviu dentro da sua cabeça.
Começa a ficar tonto, a sentir-se enjoado, tem que sair dali.
Crispado na sua mão, leva o objecto, frio, penetrante, que lhe ocupa por inteiro a atenção, lhe dirige os passos, o impulsiona, a correr, pelo passeio fora, na direcção oposta à estação de metro para onde inicialmente se dirigia.

Gemidos na noite (Livro online)

O ambiente nocturno, um pouco frio e húmido, modelado pelo D luminoso que cruza o céu, imperturbável e sonolento, transmite a quem caminha na rua uma sensação de leveza, parecendo que os seus passos são aligeirados e que o ritmo dos mesmos é mais rápido que o habitual.
António está prestes a chegar à estação de metro, a partir da qual irá para casa.
Sùbitamente, de uns prédios em ruína, junto à estação, ouve um gemido estranho, que lhe parece um miado prolongado e bizarro.
Pára, tenta escutar melhor e, sem sombra de dúvida, o gemido vem de dentro dos prédios, parecendo muito perto, de uma janela de rés-do-chão, com as madeiras carcomidas pelo tempo e pela chuva.

domingo, dezembro 19, 2004

Entre o Outono e o Inverno

Olho pela janela e retomo parte da letra daquela canção da Simone. É mesmo essa a sensação que se tem nestes dias parados, como fora do tempo, e num espaço familiar mas simultaneamente estranho.
A chuva hesita em cair, e o frio esconde-se nas esquinas, certamente porque não perceberam se têm autorização para actuar dentro da estrita legalidade meteorológica.
Entro no universo luminoso e colorido do processador, da internet, deste blog, e apesar de estar aqui, daqui a nada estou também aí, e já agora, em toda a parte (Beatles forever!)

sábado, dezembro 18, 2004

The beggining

This a first experience.
I will try to set up this blogg according to the circunstances.